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domingo, 13 de agosto de 2017

Lux et Voluptas - ClaraCuevas

a cara de quem levou tanta porrada

queria ter menos cara de quem levou tanta porrada
queria ter a carcaça mais fina
um olhar menos esperando o próximo soco
queria esperar menos o pior de tudo e de todos
queria a dissimulação de quem diz “não, obrigado”
a irrelevância de um estúpido “de nada”

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter
menos cara de quem levou tanta porrada

queria ter a sofisticação de uma infância tranquila
a classe da despreocupação
de um fino vestido longo estampado
ajustado a uma pele branquinha e sem eczemas
a esguiez aristocrática de quem não conhece
o gosto do próprio sangue escorrendo nos lábios
nem do sufoco da espera lastimada

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter
menos cara de quem levou tanta porrada

eu revido sempre
deixo cicatrizes nos outros
aguento bem o tranco
mas eu queria mesmo era
o silêncio de quem esvazia a mente
de quem carrega um sorriso histórico
covarde e vitorioso
de quem sempre vence
sem calejar os dedos
a elegância de quem não aguenta
10 minutos de briga na calçada

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter
menos cara de quem levou tanta porrada

eu desfiguro sim
algumas dessas delicadezas
e não há nada de mais nisso
cumpro meu papel de
feliz guaipeca
outra porrada
guerreira, sobrevivente
mais uma porrada
duas dezenas na conta
outra porrada
sujeita histórica de si
a fisionomia popular
que pelos punhos dos murros
dos outros foi forjada

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter
menos cara de quem levou tanta porrada

eu sorrio cínica
não me abalo
com a boca sangrando
nunca peço desculpas
é tudo verdade
todos os absurdos que falam de mim
–  morreu, feriu, apanhou e nunca desculpou-se –
nada contra essa exatidão
mas eu só queria mesmo era sentar um pouco
com a luz do sol no rosto despejada

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter
menos cara de quem levou tanta porrada.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Livro On line de JC Anjos, “Sepultado Vivo no Rio de Janeiro”, está disponível para download.



JC Anjos deixa disponível nesta página seu livro link para download e de quebra um bate-papo sobre seu trabalho que foi finalizado há quase sete anos e somente agora vem à tona. Descubra o real motivo logo abaixo.


Favo de Fel:  Seria interessante começarmos com você falando sobre o livro.

JC Anjos: sim. Inicialmente eu gostaria de apontar por um fato interessante: Este livro foi finalizado, ou diria fechado em 2006, em uma época em que eu havia lido durante todo o meu processo de composição do livro, Charles Bukowski. Assumidamente sofri uma influencia direta dele. É na verdade uma de minhas grandes formações literárias. Eu me identifiquei tanto a ponto de ler todos os seus livros. Na verdade eu o leio desde adolescência, mas naquele momento ele me influenciou bastante e agora faz parte de minha formação como ser.

Favo de Fel: somente ele?

JC Anjos: É impossível alguém se inspirar em apenas uma coisa. É porque somos uma soma de inúmeras coisas. No meu caso, sou um monstro de Frankestein com partes de Machado de Assis,Franz Kafka e um monte de outros escritores da literatura universal. Li quase toda a geração beat. Como poesia me foi importante, mas como prosa, certamente foi Bukowski . 

Favo de Fel: Mas até agora você não falou muita coisa sobre seu livro.

JC Anjos: Foi mal. (rsrsrsr), é que me empolgo com facilidade. Mas de fato isso é importante para chegar ao meu livro. Somente agora consegui publicá-lo on line porque me foi difícil retomá-lo antes devido a uma série de coisas.

FV: O que, por exemplo? E porque publicá-lo somente on line?

JCA: trabalhos formais por exemplo. Eles tomam muito meu tempo. Kkkkk. Acho que isso responde as duas perguntas, mas acrescento aqui a falta de investimento embora nos dias de hoje sejam barato publicar um livro de forma independente. Mas estou trabalhando nisso com R. Castro (nota: da Favo de Fel) para publicarmos um outro livro neste ano.

FV: Mas por que não publicar este?

JCA: Este livro já foi. Não posso ficar só nisso. Há tantas coisas que eu ainda planejo trabalhar...

FV: Sim.

JCA: Mas nada é por acaso, apesar de certos acasos. Tive que me afastar do livro. Eu sentia que ele não mais fazia parte de mim. Fiquei deprimido e o larguei.

FV: Exorcizou?

JCA: Hoje em dia não mais acredito nesta palavra. A gente não exorciza nada. Apenas exterioriza. Mas no meu caso, eu já não sentia mais nada. Eu o havia expelido porque havia transcendido as minhas referencias embora elas estejam em minha formação como pessoa. E foi preciso passar todos esses anos para ver que aqueles personagens já não me pertenciam. Eles estavam no mundo. O mundo pertencia a eles.

FV: nenhuma identificação?

JCA: sim. Como um espelho, mas não parte de mim. Me tornei publico dos meus personagens. E é isso que eu amo neles. Eles são restos da polis. A urbe como excluída dessa polis é que é sua verdadeira mãe. Uma mãe prostituida e eles são os filhos bastardos de vários pais vindos da polis conservadora. Eles são orgiásticos, mas não podem praticar isso. Então eles transgridem naquilo que costumamos sublimar... é como a velha letra de umrapper carioca: “o mundo é conservador pagando de vanguarda.” Eles não são simplesmente copias de Bukowski. A diferença de Bukowski para a geração beat é que ele não conseguia cruzar o pais como os beat. Ele era filho da urbanidade. Um fudido como eu. Como toda a classe operária de qualquer nação neoliberal ou não. Como meus personagens. Kkkkkk.

FV: então qual é a diferença do velho Charles?

JCA: a começar, eles são brasileiros. Kkkkkk. Filhos de imigrantes nordestinos. Aprisionados economicamente, logo, geograficamente na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, E seus desejos mais secretos estão expostos quando estes perdem o controle de seus próprios desejos através de seus atos. Coisa que meu mestre Bukowski não compartilhou com seu publico.

FV: mas isso não é um paradoxo. A literatura não é meio que de fato expõe o que temos de mais intimo...

JCA: não e sim. A arte em termos gerais expõe ao mesmo tempo em que esconde. Os meus personagens deixam “vazar” isso em suas atitudes. Eles não falam somente.

FV: falando nisso, percebo que você não é muito dado a descrever o ambiente e as características físicas das personagens, né?

JCA: Sim. Talvez seja porque quando escrevo penso cinema e quadrinhos. Além do mais, sempre achei enfadonho ler páginas e mais páginas de detalhes.  Machado de Assis que me desculpe. Mas no mundo em que a velocidade nos obriga a ser sucintos e em alguns casos acabamos nos tornando sintéticos. De qualquer forma isso já não cabe mais. Já imaginou eu escrevendo páginas e mais páginas detalhando a cor dos olhos de alguma personagem minha? Eu sou daltônico. Kkkkkk. Não dá. Isso não tem nada a ver com poética.  A poesia cabe onde você souber usá-la e sentir que ela cabe. No meu caso, gosto de trabalhar a psique dos meus personagens. A espacialidade é apenas um complemento na cena. Apenas quando sinto a necessidade de pintar um belo quadro. Não desperdiço imagens para não chatear o leitor que hoje vive a dinâmica da internet.

FV: Alguma mensagem, dica, considerações antes de encerrarmos?

JCA: Sim. Considerando que esta entrevista seja um resumo ou introdução ao livro, digo que  resumos e sinopses apenas existem para enumerar as ações de um trabalho mas nunca seu espírito, portanto, leiam o livro.


click na figura acima para fazer o download.