terça-feira, 16 de julho de 2013

quarta-feira, 10 de julho de 2013

domingo, 7 de julho de 2013

Ian Curtis e o Nazismo Esotérico







Ensinou um dos grandes magos da humanidade:

"Não se joga impunemente com os mistérios e segredos da vida e da morte(...) Não se faz do esoterismo um passatempo vespertino; pessoas frágeis, de mentalidade fraca e incapazes de controlar a si mesmas jamais devem buscar no ocultismo a resposta para a sua existência(...) -
ELIPHAS LÉVI


 
Quem quer que tenha presenteado o adolescente Ian Kevin Curtis com a obra "Antes de Hitler Chegar", provavelmente não conhecia os ensinamentos de Lévi. Este obscuro livro, foi escrito por um ocultista alemão ainda mais sinistro e obscuro que sua obra. Rudolf van Sebottendorff redigiu o livro no final de 1933, tão logo os nazistas subiram ao poder.

A obra relata com riqueza de detalhes como eles chegaram o poder por meio do paganismo esotérico que tanto encantava figuras proeminentes como Heinrich Himmler, Arthur de Gobineau e Rudolf Hess. Afirma com todas as letras que o destino de Hitler e do Reich foi traçado dentro da Maçonaria da Baviera; Sebottendorff, um iniciado da tradição maçônica de Memphis sabia do que estava falando, tanto que os nazistas confiscaram o livro e mandaram-no para a prisão.

Antes de Hitler Chegar foi o ponto de partida que levou Curtis a se interessar pelo ocultismo; encontar-se e conhecer a si mesmo, e que também o levaria à ruína. A primeira edição da obra que depois da apreensão pelos nazistas foi revisada, continha muito material de conteúdo eugenista.
Como epiléptico, Curtis buscou de todas as formas se germanizar, arianizar-se como o amigo e companheiro de banda Bernard Sumner ( que modificou o sobrenome para Albrecht para soar mais alemão ). A paixão de Curtis pela Alemanha nazista não se resumiu a tocar o hino alemão em seu casamento; a atmosfera do expressionismo nem mesmo a idéia de inspirar-se nas roupas da SS para compor o visual da banda em cima do palco.
O nome da banda, teoricamente tirado do romance sadomasoquista House of Dolls de Karol Cetinsky, foi na verdade "revelado" durante uma sessão Ouija em que Curtis, Sumner e um amigo de nome desconhecido tentavam estabelecer contato com o espírito de Adolf Hitler.
Quando um jornalista do extinto semanário musical inglês Melody Maker pediu a Curtis que fizesse um breve resumo de House of Dolls, percebeu que ele jamais havia lido a obra; pelo menos não tanto quanto filosofava sobre ela, já que trata-se de um ponto de vista moral um tanto quanto estranho – tendo sido escrito por um judeu.
Quando a Alemanha foi campeã na Copa do Mundo de 1974, Curtis mesmo sem um tostão no bolso se virou para conseguir uma camisa da seleção alemã em que no lugar do tradicional escudo da Bundesliga, havia um sol negro, sobreposto sobre a bandeira alemã. As pessoas que cercaram Ian Curtis desde a infância e mesmo em seus últimos dias não sabiam de onde ele havia tirado semelhante paixão platônica pelo germanismo.
Ele jamais se preocupou em responder as acusações de que a banda nutria algum tipo de simpatia pelo nazismo. Tampouco seus companheiros de banda se importavam com isso; na década decadente em que cresceram e viram a velha Manchester, símbolo e berço do mundo industrializado transformar-se num ninho de imigrantes vindos das ex-colônias do Império Britânico; tomada pela desolação, pelo medo e falta de persperctivas para os jovens; o que não faltava era gente que via num extermínio em massa de raças inferiores, a resposta para os problemas que os afligiam. Mas é improvável que ele fosse atraído particularmente pela execução dos judeus, mas sim pelo valor esotérico das idéias do Reich.
A sensação de encantamento mudou quando Curtis se deu conta que sua "fragilidade genética"; incapaz de praticar esportes competitivamente, não era exatamente um gênio no colégio e sua instabilidade afetiva, faziam dele um espécime descartável, desprezível, e que se ele realmente acreditava que a solução final, a busca pela compreensão e perfeição da espécie humana que tanto seu estudo cativava-o, deveria começar por ele o extermínio daquilo que emperrava a evolução; independente do que isso significasse para ele.
"Não poderia deixar genes ruins" disse certa vez para P-Orridge durante uma bebedeira - (embora tivesse a pequena Natalie com menos de 1 ano de idade) Faz sentido e não faz ao mesmo tempo. É necessário respeitar alguém que se considere um incapaz desolado, e tenha a coragem de por fim a sua existência. Ao mesmo tempo em que lembramos que ele era tido como egoísta, manipulador, auto-centrado, amoral, perfeccionista ( alguém aí pensou Satanista ?) pela esposa e pelos companheiros de banda.
P-Orridge, líder do Throbbing Gristle e conterrâneo de Curtis era o único com quem ele tinha esse tipo de conversa mais "filosófica". Num artigo publicado por ele há alguns anos atrás, P-Orridge pisa em ovos para contornar a situação e tenta não ofender aqueles que gostariam de saber mais sobre as crenças de Curtis.
Quando questionado se o livro que inspiraria o filme-biografia de Curtis escrito por Deborah Curtis deixava de mencionar algo importante da vida de Ian, ele dispara: "Ficou faltando tudo. É a visão magoada de mulher traída, esposa infeliz e relegada a segundo plano na vida de Curtis que ela aborda. Ela jamais conheceu o labirinto pardo-cinzento ( numa menção as cores dos uniformes da SS) em que vivia Ian."
O desespero sísmico nas letras de Curtis revelam a insatisfação consigo mesmo, a noção exata de que jamais poderia ser aquilo que mais adorava. 



 


Diz Deborah Curtis:
"Ele me obrigou a abandonar a escola, dizia que seria um rock star e que teria grana o suficiente para bancar a NOSSA vida como queríamos. Eu o amava demais, mas não a vida com que ele talvez sonhasse. Para dizer a verdade, não sei com que tipo de vida ele sonhava além daquelas que ele encontrava nos livros que ele gostava.
Ela era capaz de se iludir e cair na real em questão de minutos, reconhecer quem e o que ele era. Para mim, ele se matou sem me contar quem era na verdade. Ele também morreu sem saber quem eu era."
Como diz Deborah em Carícias Distantes, Curtis viveu uma vida inteira durante sua adolescência, no período que “descobriu” a cura para seus males, e quando reconheceu que o mal era ele mesmo. "Vocês amam em mim, aquilo que está me matando, diz Ian em uma entrevista, referindo-se a epilepsia."
Não cabe aqui analisar o que pensa os fãs da banda; que se revoltam quando alguém diz que a banda tinha "tendências" de extrema-direita, não esquecendo que eles apoiavam os Tories, tradicional partido conservador britânico que no início da ascensão nazista, via com bons olhos a idéia de expurgar judeus e comunistas do mapa. Nem de lembrar que Bernard Sumner/Albrecht aclamava a Rudolf Hess em shows da banda.
O que cabe aqui, é entender o quanto o 'Left Hand Path', a obscuridade, o esoterismo, as ciências ocultas podem afetar uma cabeça despreparada, cheia de ilusões e desespero. Curtis se matou porque supostamente reconhecia em si tudo aquilo que na sua opinião era degradante, humilhante. Primeiro ele imaginou ter encontrado no Nazi-Esoterismo a solução, ou ao menos a resposta para seus problemas e a situação em que vivia. Para em seguida, se auto-condenar, entender que não havia esperança, e que já estava suficientemente cansado para ir adiante.
Ian Curtis sempre foi uma contradição em termos. Ou como disseram os mais chegados a ele:
"Primeiro eu me enfureci. Se eu pudesse, teria o matado pela segunda vez. Quando alguém tira a própria vida, joga a culpa sobre os outros, nos tira qualquer direito de resposta, desabafou Peter Hook."
"Quando ele descobriu que o caminho que ele havia encontrado para achar suas respostas não era suficientemente iluminado... (pausa) pensando bem, o que ele esperava encontrar vivendo num mundo supostamente iluminado pelo SOL NEGRO ? - Genesis P-Orridge."
Texto de Paulie Hollefeld

domingo, 30 de junho de 2013

Mulatu Astatke & The Heliocentrics - Live à Jazz à La Villette





Mulatu Astatke & The Heliocentrics - Live à Jazz à La Villette

domingo, 23 de junho de 2013

VIOLENTAMENTE PACÍFICOS - por Gustavo Coelho


VIOLENTAMENTE PACÍFICOS



Diante da frequência quase mântrica com que a palavra “pacífica” vem sendo repetida não só no já aguardado discurso midiático viciado em suas características de entorpecente calmante, mas também nas padarias, nas bancas de jornal, nas conversas de ônibus e mesmo dentro das próprias
manifestações, resolvo aventurar-me a pensar sobre a função que essa

repetição tem em nossa subjetividade, assim como tentarei resgatar um

sentido daquilo que essa manobra acaba por invisibilizar, ou seja, os papeis
de base que a violência, a radicalidade, a guerra, o fogo, a festa e a destruição
possuem na perduração das coisas da cultura.




Para começar essa reflexão, vamos à última quinta-feira. Estava na
Candelária na concentração para mais um desses grandes atos, onde ouvi

inúmeras vezes a repetição, também mântrica, do canto “sem violência”. No

entanto, ainda assim, uma mulher com cerca de 40 anos, negra, de

sobrancelha pintada com tinta henna, aproximou-se de mim e disse:

– Tem mais é que queimar tudo, eu quero muito ver a Câmara, a Alerj e

a Prefeitura lamber em chamas! E se eu pudesse, eu ainda jogava meu filho lá

junto para ele pôr fogo nisso tudo também! – disse ela apontando para seu

filho que não tinha mais que 7 anos, também negro e com uma vasta cabeleira

Fiquei pensando no quanto de reminiscências arcaicas havia nessa
vontade anunciada de, em certa medida, lançar seu herdeiro ao fogo. Um fogo que, como todo fogo, carrega em si a ambivalência simbólica que estabelece larga intimidade e indissociação entre suas características destrutivas e construtivas, de morte e de renascimento, de atração e repulsão, de coragem e de medo. Uma ambivalência de difícil compreensão para a racionalidade moderna, a qual em muito no forma, e que com vasto investimento nadicotomização de nós mesmos e do mundo, foi capaz de dilacerar o fogo, atribuindo a ele quase sempre somente a negatividade apenas destrutiva, lançando, portanto, ao incompreensível, a sua função de comunhão e renascimento que ainda assim, mesmo que de forma inconsciente, segue perene em todas as fogueiras, tanto nas mais aparentemente inofensivas de festa junina, quanto nas barricadas contra o avanço da polícia; seja nos


coquetéis molotvs, quanto nos tantos ônibus incendiados. Um fogo, portanto,

que mantém com mais clareza sua dimensão construtiva e acolhedora

somente em velas para oferendas, em bolos de aniversário, na tocha olímpica,
numa lareira de inverno, ou seja, somente quando em chamas pacíficas – um

fogo que serve apenas quando eufemizado. Lembrando, no entanto, que

diante de uma inofensiva vela, não é raro que, sem razão aparente, tratemos

de passar nossos dedos por ela, como se prestássemos contas à potencia

destrutiva do fogo que há mesmo numa inofensiva vela de aniversário. Parece

haver alguma heresia em deixa-lo queimar sem que nos queime ao menos um

pouco. Passamos, então, os dedos de maneira ligeira pela chama. Por vezes,

com um pouco mais de coragem, o fazemos de forma mais lenta, deixando o

dedo arder, a fim de sentir ao menos uma dose da potência destrutiva

escondida naquela pequena forma de calor.





Parece-me, então, para irmos numa mitologia, que o deus asteca

Nanauatzin, uma personalidade que pouco falava, que tinha poucas posses,

humilde, mas que nada temia, recobra seu lugar nos humores de nossa época.

A fim de aceitar o papel de iluminar o mundo, ou seja, de tornar-se o próprio

Sol,  Nanauatzin fechou os olhos e de primeira lançou-se ao fogo de uma
fornalha, consumindo-se, sacrificando-se, diferentemente de  Tecuciztecatl,

deus que concorria com  Nanauatzin pela posição de iluminar o mundo, mas

que gostava de falar, possuía algumas riquezas, mas temia seu próprio
sacrifício e refugou por medo, 4 tentativas de lançar-se ao fogo. Somente na
sequência do mergulho irrefreável de Nanauatzin, como que por contágio, ele

também lançou-se. Tal passagem é utilizada por Bataille ao pensar a noção de

dispêndio como conceito chave para entender a centralidade que o sacrifício, a

troca e a circulação têm em diversas sociedades pré-modernas, e que a

epistême moderna tem dificuldade para compreender, justamente por assentarse na noção de aquisição e progresso – o que torna automaticamente, para

nós, a valorização da perda, em especial da perda de si, própria do dispêndio,

algo da ordem do incompreensível e do “ilógico”. A mãe, então, que deseja

lançar seu filho na ALERJ em chamas, soa irracional, não por ser de fato, mas

por funcionar em outra racionalidade. Um tipo de racionalidade que, a meu ver,

está em fase de reaparição esses dias.






É aí, portanto, que penso agir a cruzada travada pela repetição da

palavra “pacificação”, que já dava seus sinais no seu uso frequente pelas

políticas de segurança no Rio de Janeiro, mas que agora ecoa como a palavra

mais normativa das últimas semanas. Trata-se, a meu ver, de uma manobra

inconscienciosa coletiva de corpos cuja herança moderna, racional e pouco

arriscada, entra em descompasso com a tendência histérica e emocional de

nosso tempo. A fim, então, de resistir a ver a inelutável vocação sacrificial de

todas essas manifestações, o discurso comum cava sua inspiração na

gramática que o forjou, mas que ora caduca, a gramática do risco zero, da

preservação, escamoteando sem saber que o que pulsa quando se grita “sem

violência” é no fundo, um rugido mais do lançar-se ao fogo que do proteger-se

dele. Importa mais, então, como gritam, do que o que gritam. Sendo assim,

quando também vão tratar os vândalos como “infiltrados”, como enviados por

alguma organização maquiavélica que pretende desestabilizar o que ora

poderia ser pacífico, usam tal movimento como resistência a ver em si mesmo

doses, mesmo que menores, daqueles que com pouca cerimônia se lançam

para cima do Caveirão ou para a fornalha no caso dos Astecas. Em outras

palavras, o vândalo é, do meu modo de entender, quem melhor traduz todos

esses movimentos que tem justamente na quantidade de vezes que repetem

“manifestação pacífica”, a prova de que no fundo, mesmo que não saibam,

marcham todos para a fornalha em busca da perda de um “si” já saturado.


Nesse mesmo sentido, o vândalo é um emissário da pluralidade, aquele
que impede que as coisas e o mundo reduzam-se à função, ao papel e uso


único que lhe fora conferido, daí que eles levam ao limite o conceito de

consumidor e no mais profundo termo da palavra, consomem tudo, incineram,

deformam, destroem, fazendo retornar o enigma original de tudo. E não me

venham reduzi-los a qualquer convicção de que estão lá a mando de uma

direita ou uma esquerda. Os linhas de frente são a molecada do nosso dia a

dia, esse bando de Nanauatzins brasileiros, para quem bala de borracha, perto

do que convivem, é diversão, é fogueira pouca. Pois bem, essa molecada não

só saqueia suas televisões e playstations, mas também os destroem, não só

cantam seus funks proibidos com louvações à Mercedes e à Honda, mas

também se empenham em quebrar seus parabrisas, em por fogo nelas, assim

como põem fogo na gramática e na propriedade pela pixação, assim como

deformam o gestual pela funkeirização, assim como aceitam o ludismo das

brigas, assumindo o parentesco entre os socos e abraços nos bailes funks e

nas torcidas organizadas. Não por acaso, são justamente neles que ainda

reside com eloquência esse calor consumidor do fogo tão comum em nossa

cultura popular (vide os facões, peixeiras, espingardas e capoeiras recorrentes

em nosso repertório), mas tão estranho aos que gritam “somos pacíficos”, nos

quais, porém, parece já estar acesa a primeira fagulha. Eu falei dos Astecas,

mas poderia ter falado de Tupinambás, de Xavantes e de Capoeiras, povo todo

esse que sabe muito bem os poderes da faísca.